Poesia também é lugar de mulher
No dia da poesia, escritoras falam sobre como as mulheres existem, escrevem e constroem suas histórias na literatura e os desafios para serem reconhecidas
Publicada por Pablo Araujo em 31/10/2026 ― Atualizada em 31 de Outubro de 2026 às 11:39
Uma menina recebe a tarefa de copiar um poema para o Dia das Mães, mas decide escrever seus próprios versos. Outra encontra nos livros um refúgio para a sua timidez. A espera por um exame médico também pode se tornar literatura. Essas experiências mostram como as mulheres encontram na escrita uma maneira de interpretar a vida e eternizar suas histórias. Mas essas vozes são, de fato, ouvidas?
Essa é uma pergunta que é ponto de partida do projeto de pesquisa “A literatura feminina e o paradigma lusófono: vozes poéticas”, coordenado pela professora de Língua Portuguesa do IFRN, Gabriella Kelmer. A pesquisa fala sobre a produção das mulheres na poesia de países de língua portuguesa, aproximando autoras brasileiras de autoras portuguesas, angolanas, cabo-verdianas, moçambicanas e são-tomenses, que têm o português como língua em comum.
A iniciativa busca encontrar semelhanças e diferenças entre essas obras, levando em consideração a interseccionalidade histórica, cultural e social em que as escritoras estão inseridas. Ao dar volume a essas vozes, o trabalho intensifica a reflexão sobre a desigualdade que marca a história da literatura feita por mulheres.
No contexto do Dia da Poesia, celebrado neste sábado (31), essa articulação reforça a importância de reconhecer quem escreve, quais escritas chegam aos leitores e quais autoras estão no cânone literário. Entre as autoras estudadas estão Paula Tavares, de Angola; Ana Luísa Amaral e Maria Teresa Horta, de Portugal; Hilda Hilst e Adélia Prado, do Brasil; Dina Salústio e Vera Duarte, de Cabo Verde; além de Alda do Espírito Santo e Noémia de Sousa, de São Tomé e Príncipe e Moçambique, respectivamente.
Mulheres escrevem, mas quem é lembrada?
As mulheres enfrentam diversas barreiras para conquistar reconhecimento no campo literário. A trajetória de Carolina Maria de Jesus, por exemplo, evidencia os desafios ainda maiores enfrentados por escritoras negras, cujas produções são atravessadas pelas desigualdades de gênero, raça e classe. Esses fatores influenciam as oportunidades de publicação, circulação e reconhecimento de suas obras. Ampliar a presença dessas autoras na literatura, portanto, também significa reconhecer diferentes experiências e perspectivas sobre o mundo.
Clara Bezerra
Essa discussão sobre as mulheres e seus caminhos na escrita também passa pelas histórias de quem constrói sua trajetória literária no Rio Grande do Norte. Clara Bezerra, que trabalha com Comunicação no IFRN e também atua como escritora, conta que sua relação com a poesia começou ainda na infância. No segundo ano escolar, a professora pediu que os alunos copiassem um poema para o cartão de Dia das Mães. Clara, no entanto, decidiu escrever seus próprios versos. O cartão foi guardado pela mãe durante anos.

“Mamãe, mamãezinha,
Me ensina por favor
Esse mistério tão bonito
Que é o amor.”
Desde então, a escrita passou a fazer parte de seu olhar sobre o cotidiano. Situações aparentemente simples podem se transformar em poesia, como aconteceu com um homem que atravessava lentamente uma faixa de pedestres e inspirou o poema “Queen Experience”. Nos versos, Clara Bezerra reflete sobre o tempo, as dores e os gestos de delicadeza.
As memórias também ocupam lugar importante em sua produção. Em seu primeiro livro, Roupa de Ganho, publicado em 2023, a escritora resgata uma expressão utilizada em Cruzeta, município do Seridó potiguar onde cresceu, para se referir às mulheres que lavavam roupas como forma de sustento. O título faz referência a essas trabalhadoras e transforma em matéria literária lembranças de um cotidiano que marcou a infância e a formação da autora.
Maíra Dal’Maz

A poeta, professora e servidora pública da área da educação Maíra Dal’Maz fala que a poesia também nasce de experiências concretas. No poema ASO, publicado em Ex-voto, livro publicado em 2022 pela editora Urutau, a autora transformou a espera por um exame ocupacional em literatura. Ao se referir aos trabalhadores submetidos a uma rotina cansativa, Maíra utiliza a expressão “os contorcionistas da máquina não-lírica”. A imagem faz essa aproximação da poesia com uma realidade marcada pelo trabalho, pela espera e pela busca por condições dignas de vida.
A experiência de ser mulher também influencia essa produção. Para Maíra, as responsabilidades domésticas e o cuidado com outras pessoas interferem diretamente no tempo que se tem para escrever. "Não existe uma cabeça sem corpo, uma poética sem corpo", declara Maíra. A declaração deixa em evidência uma questão que dialoga com a pesquisa feita por Gabriella: a literatura não é um movimento feito de fora da sociedade; é atravessada pelas condições de vida, pelas relações de poder e pelas experiências de quem escreve.
Ilane Ferreira

A poesia é uma forma de transformar experiências, sentimentos e lembranças em palavras. Ao registrar diferentes vivências e modos de perceber o mundo, os versos também preservam memórias, dão novos sentidos às histórias e mantêm vivas experiências que poderiam permanecer esquecidas. Nesse sentido, a produção poética das mulheres representa também um importante registro de suas trajetórias, perspectivas e formas de expressão. Muitas escritoras, no entanto, tiveram suas obras pouco valorizadas ou foram deixadas à margem da história da literatura. Recuperar essas produções e dar visibilidade às suas autoras é, portanto, uma forma de reconhecer suas contribuições e ampliar as narrativas que compõem a memória literária.
Essa relação entre memória, leitura e escrita também está presente na trajetória de Ilane Ferreira, professora de Língua Portuguesa do IFRN, vinculada ao Campus Natal-Zona Leste. Filha e neta de professoras, ela cresceu em um ambiente cercado por livros e encontrou na leitura um refúgio para a timidez. Na adolescência, começou a registrar seus textos em cadernos, inicialmente sem a intenção de compartilhá-los. Com o tempo, a escrita passou a integrar sua trajetória pessoal e profissional, tornando-se uma maneira de elaborar experiências e expressar seu olhar sobre o mundo.
Eu publico e publicarei para deixar o registro e outras mulheres à frente possam perceber que elas podem
Regina Azevedo

A divulgação dessas obras depende, ainda, de iniciativas que aproximem o escritor do leitor. Regina Azevedo, poeta, revisora de textos e pesquisadora, atua nesse campo por meio da Lampejo, projeto dedicado à divulgação da literatura produzida por mulheres no Rio Grande do Norte.
A experiência de Regina Azevedo com a literatura também começou na escola, quando conheceu diferentes gêneros literários nos livros didáticos. Mais tarde, o contato com escritores por meio da Ação Leitura, projeto ligado à editora Escribas, em Natal, ampliou seu repertório e sua relação com a literatura.
“A poesia é um território de prazer e liberdade. É preciso entregar todo o corpo à escrita, desejar escrever, arriscar-se” — Regina Azevedo.
Valorização da literatura através da pesquisa
Ao investigar obras, aproximar diferentes experiências e dar visibilidade a autoras historicamente pouco reconhecidas, a pesquisa contribui para ampliar o conhecimento sobre a produção literária feminina e estimular a circulação dessas obras entre novos leitores.
Coordenado pela professora Gabriella Kelmer, o estudo também propõe uma reflexão sobre o lugar das mulheres na história da literatura e a importância de reconhecer suas produções como parte da construção do patrimônio literário de língua portuguesa.