Empatia
Kamby: de um gesto invisível nasce um aplicativo capaz de salvar vidas
Projeto “Kamby”, criado por alunos do CNAT, une tecnologia e empatia para facilitar a doação de leite humano no Brasil
Publicada por Romana Xavier em 27/05/2026 ― Atualizada em 27 de Maio de 2026 às 21:56
Existe um momento em que a tecnologia deixa de ser apenas ferramenta e passa a ser gesto humano. Quando um aplicativo deixa de servir ao consumo, ao entretenimento ou à pressa cotidiana para cumprir uma missão silenciosa: ajudar vidas a continuarem existindo.
Foi nesse território — entre a inovação e o cuidado — que nasceu o Kamby, projeto criado por estudantes do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN) e vencedor da Olimpíada Brasileira de Tecnologia (OBT), uma das maiores competições estudantis de inovação do país.
O nome vem do Tupi-Guarani e significa “leite”. Mas o significado do projeto vai muito além da tradução literal. O Kamby carrega a ideia de alimento, acolhimento e sobrevivência. Uma tecnologia criada para aproximar mães doadoras, bancos de leite humano e equipes responsáveis pela coleta domiciliar.
Enquanto muitos jovens da mesma idade ainda tentam descobrir qual caminho seguir, seis estudantes potiguares decidiram enfrentar um problema social complexo: as dificuldades existentes no processo de doação de leite materno no Brasil.
E encontraram, na programação, uma forma de cuidado.

Integrantes do Projeto Kamby
Uma olimpíada que desafia jovens a resolver problemas reais
A história começou dentro da Olimpíada Brasileira de Tecnologia, iniciativa criada pelo Instituto Alpha Lumen (IAL), em parceria com o MIT Brazil e apoio do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA).
Desde 2021, a OBT reúne estudantes de diferentes regiões do país em desafios ligados à metodologia STEAM — sigla em inglês para Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática.
Mas a competição vai além da robótica e da programação.
Os participantes precisam olhar para problemas reais de suas comunidades, conectando tecnologia aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU. Ao longo da jornada, os estudantes são incentivados a pesquisar, propor soluções e desenvolver protótipos capazes de gerar impacto social concreto.
Foi exatamente nesse cenário que surgiu a equipe Potiguaras.
Quando ouvir histórias vira ponto de partida
A ideia do Kamby não nasceu de uma tendência tecnológica nem de um estudo de mercado. Surgiu da observação da vida real.
Pessoas próximas aos integrantes da equipe tiveram contato com a rotina da doação de leite humano e perceberam algo inquietante: muitas mães desejam doar, mas enfrentam barreiras que vão desde a falta de informação até dificuldades logísticas para realizar a coleta.
A percepção mobilizou os estudantes.
“Entendemos que era uma temática extremamente importante para a sociedade, porque a doação de leite pode salvar vidas de recém-nascidos internados e em situação de vulnerabilidade”, explica Clara Teodósio, integrante da equipe.
O Brasil possui uma das maiores redes de bancos de leite humano do mundo, reconhecida internacionalmente pela atuação na redução da mortalidade infantil. Ainda assim, campanhas públicas frequentemente alertam para a necessidade de ampliar o número de doadoras e facilitar o acesso ao sistema.
Foi nesse espaço entre necessidade social e possibilidade tecnológica que o Kamby ganhou forma.
Tecnologia para diminuir distâncias
Ainda em fase de implementação, o aplicativo foi pensado como uma plataforma integrada.
Na prática, o sistema deverá permitir que mães interessadas em doar encontrem informações sobre o processo, descubram os critérios necessários para se tornarem doadoras e localizem bancos de leite próximos de suas residências.
O aplicativo também prevê recursos como solicitação de kits de coleta e agendamento de recolhimento domiciliar do leite humano.
Além disso, o Kamby terá uma área educativa, com vídeos, artigos e conteúdos explicativos voltados para mães que ainda possuem dúvidas sobre amamentação e doação.
Mas o projeto enxergou outro desafio importante.
Em diversas cidades brasileiras, o Corpo de Bombeiros participa da coleta domiciliar de leite materno. Pensando nisso, os estudantes desenvolveram funcionalidades voltadas à organização logística dessas equipes, incluindo geração de rotas e gerenciamento de recolhimentos.
É a tecnologia tentando fazer aquilo que muitas vezes falta aos serviços públicos: conectar pessoas com mais eficiência.
Programar depois de escutar
Antes de construir o protótipo, os estudantes decidiram fazer algo essencial: ouvir.
Durante o desenvolvimento do projeto, a equipe conversou com profissionais ligados a bancos de leite humano e com mães que já haviam passado pela experiência da doação.
Segundo o professor Leonardo Minora, as entrevistas ajudaram os jovens a compreender dificuldades reais do cotidiano. “Essas conversas foram muito importantes porque ajudaram a gente a entender o que realmente precisava ser melhorado”, conta Clara.
A partir desses relatos, surgiram funcionalidades mais alinhadas às necessidades práticas das usuárias. Talvez por isso o projeto tenha conseguido algo raro: unir sensibilidade social e inovação tecnológica sem perder a dimensão humana do problema.
Ouro nacional e orgulho potiguar
O resultado veio em forma de reconhecimento nacional.
A equipe Potiguaras conquistou o primeiro lugar da OBT com nota máxima — tornando-se a única representante do Rio Grande do Norte premiada na competição. A conquista teve peso simbólico.
Além do resultado inédito, os estudantes também assumiram a continuidade de uma trajetória construída por antigos integrantes da equipe, que haviam conquistado medalhas em edições anteriores da olimpíada.
“Ganhar o ouro agora representa manter vivo esse legado”, afirma Clara.
A equipe é formada pelos estudantes Amanda Lara, Caio Henrique, Clara Teodósio, Ermesson Andrade, Heitor de França e Lucas Cássio, todos alunos do 4º ano do curso técnico integrado em Informática para Internet do IFRN Natal Central, sob orientação do professor Leonardo Minora.
Cada integrante contribuiu em áreas diferentes — design, pesquisa, programação, organização e planejamento.
Juntos, provaram que inovação também se constrói coletivamente.
De uma sala de aula para os corredores da inovação brasileira
A vitória garantiu à equipe um convite para participar da Semana EAT (Escola Avançada de Tecnologia), em São José dos Campos, interior de São Paulo.
O evento reúne estudantes, pesquisadores e representantes de grandes instituições e empresas ligadas à tecnologia e inovação, como MIT, ITA, Embraer, IAE e CloudWalk.
Durante a programação, os potiguares irão apresentar o Kamby, participar de oficinas, palestras e visitas técnicas em alguns dos maiores centros tecnológicos do país.
Representar o Rio Grande do Norte nesse cenário carrega um significado especial para os estudantes.
“Queremos mostrar que o nosso estado também produz tecnologia, inovação e projetos com impacto social relevante”, diz Clara.
O próximo desafio
Apesar da conquista nacional, a equipe agora enfrenta uma batalha menos tecnológica e mais financeira.
Os estudantes realizam campanhas de arrecadação, rifas solidárias e buscam patrocinadores para custear despesas da viagem, como passagens, alimentação e inscrições.
Metade da meta já foi alcançada, mas o grupo ainda depende de apoio para garantir participação completa na imersão.
Enquanto isso, o Kamby segue avançando.
A equipe trabalha na implementação do aplicativo e sonha em transformar o projeto em uma ferramenta efetivamente utilizada pela população.
Porque, no fim das contas, talvez o maior prêmio não esteja na medalha de ouro.
Mas na possibilidade de fazer a tecnologia cumprir aquilo que ela raramente promete — aproximar pessoas, reduzir desigualdades e ajudar vidas a continuarem existindo.
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