Mineração Sustentável
Entre argilas e o fogo, a reinvenção de resíduos da Mineração
Quando sobra conhecimento, a sobra deixa de ser descarte
Publicada por Romana Xavier em 11/06/2026 ― Atualizada em 11 de Junho de 2026 às 21:55
Existem materiais que parecem condenados ao esquecimento. Restos de mineração acumulados, rejeitos da extração mineral, fragmentos que, à primeira vista, carregam apenas a marca do descarte. No entanto, dentro de um laboratório do Campus Natal-Central do IFRN, esses resíduos ganham outra possibilidade de existência. O que antes era sobra começa a adquirir forma, resistência e utilidade. Através da Pesquisa e da Ciência, vira cerâmica.
É nesse cenário que atua o grupo de pesquisa Lavra, Beneficiamento e Meio Ambiente (LBMA). Unindo investigação científica, sustentabilidade e formação estudantil, o grupo desenvolve pesquisas voltadas ao aproveitamento de resíduos sólidos provenientes da atividade mineradora como componente na formulação de cerâmicas vermelhas e brancas.
Mais do que estudar materiais, o LBMA investiga possibilidades. Busca entender como rejeitos minerais podem deixar de representar um passivo ambiental para se tornar matéria-prima alternativa na indústria cerâmica, contribuindo para práticas alinhadas à sustentabilidade, à inovação e à economia circular.
Quando o rejeito deixa de ser fim para ser recomeço
A pesquisa parte de uma pergunta essencial: o que fazer com os resíduos gerados pela mineração?
Enquanto toneladas de rejeitos ainda representam desafios ambientais em diferentes regiões do país, o grupo procura respostas dentro da própria ciência dos materiais. O objetivo é produzir peças de cerâmica vermelha e branca utilizando resíduos minerários incorporados às formulações cerâmicas, criando alternativas sustentáveis para o reaproveitamento desses materiais.
O trabalho busca reduzir os impactos ambientais associados ao descarte inadequado de resíduos sólidos e, ao mesmo tempo, desenvolver produtos com potencial aplicação industrial.
Mas os resultados pretendidos não se limitam às peças produzidas nos laboratórios. A pesquisa também funciona como espaço de formação científica e tecnológica para estudantes dos cursos técnicos, promovendo qualificação acadêmica, desenvolvimento profissional e incentivo à continuidade dos estudos em cursos de graduação e pós-graduação.
Nesse processo, os estudantes não apenas acompanham a pesquisa: tornam-se parte ativa dela.
O laboratório onde a matéria se transforma
As atividades do grupo acontecem no Laboratório de Processamento Mineral e Resíduos (LPMR), localizado na sala 12 da Diretoria Acadêmica de Recursos Naturais (DIAREN), no IFRN Campus Natal-Central.
Ali, entre equipamentos, amostras minerais, argilas e fornos, a pesquisa ganha ritmo cotidiano. De segunda a sexta-feira, os integrantes do grupo dedicam cerca de 20 horas semanais às atividades dos projetos, em uma rotina que combina investigação científica, experimentação prática e desenvolvimento tecnológico.

O grupo é coordenado pelo professor doutor Marcondes Mendes de Souza e reúne uma equipe formada pelos pesquisadores Adna Steffany Torres de Souza Mendonça, Allicia Macely da Silva Dantas, Ana Julia da Silva Vitaliano, Ana Luiza Fabricio Melo de Oliveira, Ana Thereza da Silva Bezerra, Carlos Eduardo Oliveira Queiroz, Elis Raynara de Oliveira Aquino, Giselle Sophia Ribeiro Carvalho, João Paulo Melo dos Santos Júnior, Letícia de Araújo Ferreira, Mariana Roberta de Medeiros Leão, Maria Clara de Souza Medeiros, Marta Vitória Marques Souza, Matheus Peres de Amorim, Mayara Rakelly Xavier Santos, Marcelo Gomes de Lira Filho, Nathalia de Carvalho Fonseca, Pedro Henrique Matias da Silva e Samuel Augusto Trindade Melo.
A pesquisa desenvolvida pelo grupo utiliza metodologias de caracterização física, química, tecnológica e mineralógica dos resíduos da mineração e das matérias-primas cerâmicas. Para isso, diferentes etapas laboratoriais são realizadas, como britagem, cominuição, peneiramento, secagem e sinterização.
Além dos processos de preparação dos materiais, também são executados ensaios tecnológicos que analisam aspectos fundamentais das peças produzidas, como absorção de água, porosidade aparente, retração linear de queima e perda ao fogo.
Cada teste funciona como uma espécie de conversa silenciosa com a matéria. Os pesquisadores observam comportamento, resistência, estabilidade e desempenho tecnológico dos materiais produzidos com diferentes proporções de resíduos minerários incorporados às formulações cerâmicas.
É nesse percurso que a pesquisa avalia a qualidade e a viabilidade dessas peças para utilização na indústria cerâmica.
Ciência que ultrapassa os muros do laboratório
Os resultados do LBMA já vêm alcançando visibilidade em importantes eventos científicos nacionais.
Entre as produções acadêmicas recentes, destacam-se os trabalhos apresentados no Encontro Nacional de Tratamento de Minérios e Metalurgia Extrativa (ENTMME), realizado em Gramado, no Rio Grande do Sul, onde o grupo apresentou quatro trabalhos científicos.
Entre eles estão o estudo “Análise Química e Mineralógica do Resíduo de Caulim Aplicado na Cerâmica Vermelha”, de autoria do professor doutor Marcondes Mendes, e “Análise Química de Argilas com Diferentes Cores de Queima para o Desenvolvimento da Indústria Cerâmica”, desenvolvido pelo pesquisador Marcelo Gomes.
Em 2026, o grupo também conquistou destaque no Congresso Brasileiro de Cerâmica (CBC), realizado em Foz do Iguaçu, no Paraná, com a apresentação de três artigos completos desenvolvidos pelas pesquisadoras Ana Júlia, Ana Thereza e Letícia Araújo.
As participações evidenciam não apenas a produção científica do grupo, mas também seu compromisso com a formação de pesquisadores e a difusão do conhecimento em espaços acadêmicos de relevância nacional.
Sustentabilidade moldada pelas mãos da ciência
Existe algo de simbólico na pesquisa desenvolvida pelo LBMA. Enquanto a mineração tradicionalmente retira matéria da terra, o grupo busca devolver significado ao que seria descartado por ela.
A pesquisa transforma resíduos em possibilidade.
Ao propor o reaproveitamento de materiais minerários na produção cerâmica, o grupo contribui para reduzir impactos ambientais, fortalecer práticas sustentáveis e estimular modelos de economia circular.
Mas talvez um dos maiores resultados da pesquisa esteja justamente na formação das pessoas que passam pelo laboratório. Estudantes que aprendem a investigar, testar, produzir, publicar e compreender que ciência não é apenas teoria — é também ferramenta de transformação social, ambiental e tecnológica.
No LPMR, cada peça produzida carrega mais do que minerais e argilas submetidos ao fogo. Carrega perguntas, tentativas, cálculos, hipóteses e descobertas. Carrega o esforço coletivo de pesquisadores que transformam resíduos em conhecimento e conhecimento em futuro sustentável.
Porque, às vezes, a inovação começa onde muitos enxergam apenas descarte.