Embora os estudos sobre as causas da favela e as propostas para a sua solução abundem na literatura nacional e internacional há muitos anos, o interesse pelo estudo de sua história é relativamente recente. Ainda que, no Brasil, a gênese da favela tenha sido remetida ao final do século XIX, foi somente em meados da década de 1940 que ela deslocou-se para centro das preocupações dos formuladores das políticas urbanas e do debate acadêmico, tornando-se um tema de interesse científico. Emerge, assim, uma “techné” da favela, associada ao discurso do desenvolvimento, que elabora instrumentos, mecanismos e procedimentos estratégicos para regulamentar e padronizar a prática governamental, baseando-se em teorias que fornecem o fundamento epistemológico da racionalidade administrativa. Como objeto do discurso e da estratégia do desenvolvimento, a favela tornou-se um importante campo de testes para novas formas de ação social, trabalho social e investigação social. O objetivo da presente pesquisa é examinar como, entre 1940 e 1994, na cidade do Rio de Janeiro, a favela tomou forma no interior do discurso do desenvolvimento; como se articulou com uma ampla gama de instituições, processos econômicos e relações sociais; e como esse novo objeto do desenvolvimento (tão distinto da favela tal como era compreendida pelo pensamento médico-social) se associou a técnicas de planejamento que o próprio desenvolvimento fizera emergir. Para isso, recorreremos à análise de discurso de projetos, programas, pesquisas acadêmicas, levantamentos estatísticos, legislação e artigos da imprensa com o fito de identificar e descrever o surgimento e o desenvolvimento das categorias administrativas hoje amplamente utilizadas no tratamento de assentamentos informais; a rede conceitual associada às favelas (buscando explicitar as regras que permitem relacionar os diferentes conceitos a um sistema comum); e as “técnicas” ou práticas prescritas e procedimentos que indicam o que fazer e como agir em relação à favela, para alcançar os resultados esperados. Nesse sentido, a pesquisa visa contribuir para a compreensão da favela, não como um efeito indesejado de políticas sociais insuficientes, mas como um espaço sócio e historicamente construído para circunscrever um campo de governo. Além disso, a proposta aqui apresentada se encontra vinculada a um projeto mais abrangente, intitulado La ville informelle au 20e siècle e liderado pelo Centro de História Social do Século XX (CHS) da Universidade de Paris 1 Panthéon-Sorbonne, que visa, mediante uma abordagem comparativa e transnacional, traçar a história da “cidade informal” no século XX, incluindo e articulando pesquisas realizadas na Espanha, Itália, Argélia, Marrocos, Brasil e Estados Unidos (arquivos das Nações Unidas). Assim, esperamos contribuir para o estabelecimento de uma cronologia internacional das políticas governamentais para as favelas, a partir da análise do quadro jurídico nacional e local, e dos dispositivos de informação, controle, repressão e integração que lidam com a questão.
Projeto importado do Suap em 08/08/2026 às 03:11 (há 22 horas, 19 minutos)