CURSO: Vivenciando Saberes, Memórias e Ofícios da Capoeira
Em execuçãoCURSO: VIVENCIANDO SABERES, MEMÓRIAS E OFÍCIOS DA CAPOEIRA
Eixo: Saberes Tradicionais Afro-brasileiros
Subeixos: Artes e Ofícios; Memórias e Oralidade
1. EMENTA
O curso propõe um processo formativo integralmente presencial e vivencial sobre a Capoeira enquanto manifestação cultural afro-brasileira e patrimônio imaterial reconhecido pelo IPHAN. A proposta busca promover a valorização e a salvaguarda dos saberes tradicionais vinculados à roda e ao ofício de mestre de Capoeira, compreendidos como espaços e práticas fundamentais de preservação da memória e da oralidade afro-brasileira.
A roda de Capoeira é o território simbólico onde se ensinam e atualizam valores, histórias e técnicas ancestrais por meio da palavra cantada, do corpo em movimento e da convivência comunitária — elementos que a inserem no subeixo “Memórias e Oralidade”. Já o ofício de mestre de Capoeira expressa o domínio técnico, pedagógico e ético de um saber artesanal e artístico que envolve a confecção e o uso de instrumentos (berimbau, atabaque, pandeiro), a condução das rodas e o ensino das tradições, dialogando diretamente com o subeixo “Artes e Ofícios”.
Dessa forma, o curso integra dimensões práticas e reflexivas, promovendo a transmissão intergeracional de saberes e fortalecendo os processos de resistência, pertencimento e identidade afro-brasileira.
2. JUSTIFICATIVA
A Capoeira constitui uma das mais significativas expressões dos saberes afro-brasileiros, sintetizando luta, arte, educação e filosofia ancestral. Entretanto, a desvalorização histórica e o apagamento simbólico de suas tradições colocam em risco a continuidade de seus ofícios e mestres.
Esta proposta, inserida na perspectiva do Programa Escola Nacional Nego Bispo, visa à salvaguarda da roda e do ofício de mestre de Capoeira, valorizando o conhecimento tradicional e o diálogo intergeracional.
A ação destina-se a atender 25 estudantes de escolas públicas (municipal e estadual) localizadas no entorno do IFRN – Campus Natal Central, como forma de promover inclusão cultural e fortalecimento identitário. O curso também contribui para a efetivação das Leis nº 10.639/2003 e nº 11.645/2008, aproximando o ensino formal das práticas culturais afrodescendentes.
Além disso, destaca-se a experiência de quase uma década do proponente na coordenação de projetos extensionistas voltados à Capoeira. No âmbito do IFRN, elencam-se os seguintes projetos já concluídos: *Qualidade de vida no trabalho através da capoeira* (EDITAL 02/2016-PROEX/IFRN); *Brincadeiras e cantigas da capoeiragem na melhor idade* (EDITAL 07/2017-PROEX/IFRN); *Através da capoeira, um pé na roda outro na net* (EDITAL 03/2018-PROEX/IFRN); *Práticas assertivas para o fortalecimento da Capoeira como cultura e desporto brasileiro* (EDITAL Nº 01/2019-PROEX/IFRN); *Papo de Capoeiras: um registro audiovisual dos acontecimentos na Capoeira Potiguar* (EDITAL Nº 03/2021-PROEX/IFRN); *Valorizando a arte brasileira através de práticas saudáveis com Capoeira* (EDITAL Nº 01/2022 - PROEX/IFRN); e *Práticas afirmativas de salvaguarda da Capoeira como cultura e desporto brasileiro* (EDITAL Nº 01/2024 - PROEX/IFRN).
A trajetória do proponente revela um compromisso contínuo com a democratização do acesso à cultura e com a valorização das identidades afro-brasileiras. Todos os projetos desenvolvidos apresentam um viés inclusivo, voltado à promoção da diversidade, da equidade e da participação social. Assim, esta proposta reafirma o papel da Capoeira como instrumento de transformação cultural e social, fortalecendo o compromisso do IFRN com a educação antirracista, plural e cidadã.
3. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
A Capoeira é compreendida, neste curso, como um sistema de saberes tradicionais afro-brasileiros que articula corpo, musicalidade, oralidade, ancestralidade e convivência comunitária. Essa prática constitui-se em um patrimônio imaterial vivo, reconhecido pelo IPHAN desde 2008 e pela UNESCO desde 2014, como expressão de resistência, identidade e pertencimento das populações afrodescendentes no Brasil.
De acordo com Nego Bispo (2019), os saberes tradicionais representam epistemologias vivas e insurgentes, capazes de romper com as hierarquias coloniais de produção do conhecimento. No contexto da Capoeira, isso se expressa na oralidade, no gesto e na experiência, que se transmite nas rodas, nas ruas e nas comunidades — espaços de ensino e aprendizagem coletiva. Essa perspectiva é reafirmada no Plano de Salvaguarda da Capoeira do Rio Grande do Norte (IPHAN, 2025), documento construído de forma participativa pelos mestres e mestras potiguares, que define ações e diretrizes voltadas à preservação da Roda e do Ofício de Mestre de Capoeira como bens culturais de relevância nacional.
Segundo o Plano, a salvaguarda da Capoeira Potiguar baseia-se em quatro eixos:
- Mobilização social e articulação interinstitucional, fortalecendo o diálogo entre mestres, comunidades e instituições de ensino;
- Difusão, educação e produção de conhecimento, incentivando projetos educativos como o “Capoeira nas Escolas”;
- Formação e capacitação para capoeiristas, promovendo a qualificação técnica, pedagógica e cultural dos mestres e aprendizes;
- Apoio às condições materiais, com ações voltadas à sustentabilidade e à criação de Centros de Referência da Capoeira Potiguar.
Esses eixos reforçam a necessidade de integrar a Capoeira às políticas educacionais e culturais, promovendo o reconhecimento do ofício de mestre como um ofício pedagógico e artístico. Essa compreensão dialoga diretamente com o presente projeto, que se propõe a fortalecer o vínculo entre escola e comunidade capoeirista, tornando o IFRN um espaço de educação patrimonial e valorização dos saberes afro-brasileiros.
Autores como Mestre Pastinha (1964) e Waldeloir Rego (1968) já destacavam que a Capoeira é mais que um jogo corporal: é um modo de viver e de aprender com o outro. Abib (2005) e Assunção (2002) também enfatizam seu potencial como prática educativa, promotora de autonomia, solidariedade e reconstrução identitária. Assim, a Roda de Capoeira se constitui como território simbólico e pedagógico, no qual se produzem memórias, se reafirmam valores éticos e se fortalecem vínculos comunitários.
Nesse sentido, a fundamentação teórica deste curso integra três dimensões complementares:
- A epistemologia dos saberes tradicionais, que legitima o corpo e a oralidade como instrumentos de produção do conhecimento (Bispo, 2019);
- A política de salvaguarda cultural, que busca garantir a continuidade das tradições capoeirísticas no território potiguar (IPHAN, 2025);
- A dimensão educativa e emancipatória da Capoeira, que promove o respeito, à diversidade e o pertencimento cultural.
Com isso, o curso “Vivenciando Saberes, Memórias e Ofícios da Capoeira” se insere como uma ação concreta de salvaguarda, alinhada às metas do Plano de Salvaguarda da Capoeira do Rio Grande do Norte, contribuindo para a transmissão intergeracional dos saberes, a valorização dos mestres locais e o fortalecimento da identidade afro-brasileira no contexto educacional e comunitário.
4. OBJETIVO GERAL
Promover a valorização e a transmissão dos saberes tradicionais afro-brasileiros por meio da Capoeira, fortalecendo a salvaguarda da Roda e do Ofício de Mestre.
5. OBJETIVOS ESPECÍFICOS
- Propiciar a vivência e o aprendizado prático da Capoeira em seus aspectos corporais, musicais e filosóficos;
- Fomentar a escuta e o registro das memórias de mestres e contramestres locais;
- Desenvolver oficinas sobre construção e afinação de instrumentos tradicionais (berimbau, atabaque, pandeiro);
- Promover reflexões sobre ancestralidade, resistência e identidade afro-brasileira;
- Incentivar a formação de jovens multiplicadores culturais no território.
6. CONTEÚDOS (60H/A) ABORDADOS DE FORMA PRESENCIAL (período de janeiro a abril de 2026)
- História e ancestralidade da Capoeira: a Roda como espaço de saber e resistência (10h).
As atividades teóricas e dialogadas ocorrerão uma vez por mês, envolvendo rodas de conversa, leitura de textos e exibição de vídeos documentais. Serão promovidos debates sobre a origem africana da Capoeira, os processos de resistência cultural e a importância da Roda como espaço de transmissão de saberes e fortalecimento identitário.
- Vivências práticas com Samba de Roda e Maculelê (8h).
As práticas ocorrerão uma vez por semana, com encontros intercalados de experimentação corporal, canto e percussão, enfatizando a relação entre ritmo, expressão e ancestralidade. Os participantes aprenderão os fundamentos das danças afro-brasileiras, reconhecendo-as como manifestações de celebração e resistência.
- Musicalidade e oralidade afro-brasileira (8h).
Realizadas uma vez por semana, as atividades abordarão os principais cantos da Capoeira e de outras manifestações culturais afro-brasileiras, explorando letras, toques e mensagens transmitidas oralmente. Serão incentivadas práticas de canto coletivo e exercícios de escuta e improvisação.
- Oficina de instrumentos: berimbau, pandeiro e atabaque (8h).
As oficinas ocorrerão duas vezes durante o curso, com momentos de aprendizado técnico e de construção simbólica. Os participantes terão contato com os instrumentos tradicionais, aprendendo afinação, batidas, variações rítmicas e os cuidados de preservação, integrando som, gesto e história.
- Vivências práticas de Capoeira Angola e Regional (20h).
As aulas práticas acontecerão três vezes por semana, com alternância entre fundamentos da Capoeira Angola e da Capoeira Regional. Serão desenvolvidas atividades de alongamento, movimentação, ginga, golpes e jogos em dupla, estimulando o respeito, a cooperação e o domínio técnico e expressivo dos participantes.
- Produção coletiva: roda pública e registro audiovisual (6h).
A etapa final será realizada ao longo do mês de abril de 2026, em locais acessíveis a todos os participantes do projeto, com encontros periódicos para ensaios, planejamento e realização de uma roda pública de Capoeira. Paralelamente, será feito o registro audiovisual das atividades, com o objetivo de documentar a prática, valorizar a memória coletiva e fortalecer o protagonismo dos participantes.
Todas as atividades serão conduzidas em conformidade com as medidas necessárias para garantir a segurança e a proteção de todos os envolvidos, considerando aspectos de acessibilidade, organização do espaço, supervisão adequada e protocolos de cuidado durante a execução. Essa etapa final promove a integração dos saberes adquiridos, a visibilidade cultural e a participação inclusiva da comunidade escolar e local.
7. METODOLOGIA
O curso adotará uma abordagem dialógica e vivencial, integrando oficinas práticas, rodas de conversa, narrativas orais, produções artísticas e registros audiovisuais. Essa metodologia busca valorizar o saber popular e os conhecimentos tradicionais, promovendo a participação ativa dos estudantes na construção do conhecimento, conforme apontam Santos (2009) e Cavalcanti (2018) sobre a importância da transmissão intergeracional e comunitária de saberes.
A condução das atividades será compartilhada entre o Mestre de Saberes Tradicionais (Capoeira) e o Assistente (mestre de capoeira), com mediação do proponente, servidor técnico do IFRN. Essa articulação garante a fidelidade aos ofícios tradicionais, ao mesmo tempo em que promove práticas pedagógicas inclusivas e adaptadas às necessidades do público-alvo.
As aulas ocorrerão três vezes por semana, no período noturno, das 19h às 21h, na sala multiuso do prédio Nuarte ou na quadra de esportes do campus. Cada encontro será estruturado de forma a intercalar momentos de prática corporal, musicalidade, rodas de conversa e registro audiovisual, possibilitando o desenvolvimento simultâneo de habilidades técnicas, cognitivas e culturais.
As atividades finais incluirão a produção coletiva de uma roda pública de Capoeira e registro audiovisual, consolidando os aprendizados e promovendo o protagonismo dos participantes, além de contribuir para a salvaguarda do patrimônio cultural imaterial.
8. CRONOGRAMA DE EXECUÇÃO
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Etapa |
Período
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Atividades |
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Preparação e mobilização |
Nov/2025 |
Seleção dos cursistas, articulação com escolas e associações de Capoeira |
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Comprar camisas e abadás |
Jan/2026 |
Aquisição de vestimentas para os cursistas (camisas e abadás) |
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Execução das oficinas |
Jan – Abr/2026 |
Aulas teóricas e práticas (60h) |
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Encerramento e mostra cultural |
Abr/2026 |
Apresentação pública, roda de encerramento e exibição do vídeo-documentário |
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Relatórios e prestação de contas |
Abr/2026 |
Elaboração dos relatórios final e financeiro |
9. INFRAESTRUTURA E LOCAL
As atividades serão realizadas nos espaços do IFRN – Campus Natal Central, utilizando a quadra coberta, o auditório e as salas multiuso, de acordo com as demandas de cada etapa do projeto.
Serão empregados instrumentos de Capoeira, equipamentos de som, tecidos, materiais de registro audiovisual e materiais de consumo básico (como água, papel, cordas, colas, entre outros), necessários à execução das atividades formativas e culturais.
O IFRN – Campus Natal Central dispõe de uma infraestrutura ampla e moderna, com área aproximada de 90.000 m², que abriga espaços administrativos, acadêmicos e esportivos. O campus conta ainda com bibliotecas, auditórios, museu, refeitório, cantina, unidade de saúde, piscinas, quadras poliesportivas e estacionamento. Recentemente, a instituição passou por obras de modernização e adequação de acessibilidade, garantindo um ambiente inclusivo, seguro e adequado à realização das ações extensionistas.
10. PÚBLICO-ALVO
O curso destina-se a 25 participantes, preferencialmente estudantes do ensino fundamental e médio de escolas públicas estaduais e municipais situadas nas imediações do IFRN – Campus Natal Central.
A seleção do público visa fortalecer a relação entre o Instituto e a comunidade do entorno, ampliando o acesso de jovens de escolas públicas às ações de formação cultural e cidadã. O projeto busca, ainda, contribuir para a inclusão social, a valorização das identidades afro-brasileiras e o reconhecimento da Capoeira como prática educativa e patrimônio cultural.
11. RECURSOS FINANCEIROS (ESTIMATIVA)
Valores necessários para excursão do curso.
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Tipo |
Descrição |
Valor |
Quantidade |
Valor total |
|
bolsa |
Proponente: três parcelas de R$ 2.100 (dois mil e cem reais) |
6.300,00 |
1 |
6.300,00 |
|
bolsa |
Mestre de Capoeira: três parcelas de R$ 2.100 (dois mil e cem reais) |
6.300,00 |
1 |
6.300,00 |
|
bolsa |
Assistente do Mestre: três parcelas de R$ 1.000,00 (mil reais) |
3.000,00 |
1 |
3.000,00 |
|
bolsa |
Colaborador: três parcelas de R$ 1.000,00 (mil reais) |
3.000,00 |
2 |
6.000,00 |
|
bolsa |
Bolsa para cursista: 3 (três) parcelas de R$ 200,00 (duzentos reais) |
600,00 |
25 |
15.000,00 |
|
custeio |
Calça de Capoeira Abada com costuras duplas e reforço, feita de Helanca 100% Poliamida. |
65,00 |
25 |
1.625,00 |
|
custeio |
Camiseta personalizada com identidade visual do projeto (frente e costa) |
45,00 |
35 |
1.575,00 |
|
custeio |
Serviços de terceiros e impressão de banner |
500,00 |
1 |
500,00 |
|
custeio |
Materiais de consumo e construção de instrumentos |
1.300,00 |
1 |
1.300,00 |
|
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|
Custo total: |
41.600,00 |
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12. CRITÉRIOS DE SELEÇÃO DOS CURSISTAS
- Estar matriculado em escola pública estadual ou municipal próxima ao IFRN - Campus Natal Central;
- Ter idade mínima de 14 anos;
- Manifestar interesse por práticas culturais afro-brasileiras;
- Priorização de estudantes autodeclarados negros (as) ou pertencentes a comunidades tradicionais.
13. REFERÊNCIAS
ABIB, P. R. J. Capoeira: educação e cultura afro-brasileira. Salvador: EDUFBA, 2005.
ASSUNÇÃO, M. R. Capoeira: the history of an Afro-Brazilian martial art. London: Routledge, 2002.
BISPO, Nego. Colonialismo, quilombos e modos de vida. Rio de Janeiro: Mórula, 2019.
CAVALCANTI, F. Saberes populares e cultura local: práticas e transmitências. Recife: UFPE, 2018.
IPHAN. Plano de salvaguarda da Capoeira no Rio Grande do Norte. Brasília: Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, 2025.
PASTINHA, Mestre. Capoeira Angola. Salvador: [s.n.], 1964.
REGO, W. Capoeira Angola: ensaio sócio-etnográfico. Salvador: Itapoã, 1968.
SANTOS, B. de S. A universidade no século XXI: para uma reforma democrática e emancipatória do saber. Belo Horizonte: Autêntica, 2009.
UNESCO; IPHAN. Dossiê de registro da Roda de Capoeira e do ofício de Mestre de Capoeira. Brasília: IPHAN, 2008.
ANEXOS
ANEXO I – Identidade visual do curso: Vivenciando Saberes, Memórias e Ofícios da Capoeira.
Projeto importado do Suap em 09/03/2026 às 04:41 (há 12 horas, 10 minutos)