Saindo do armário: construindo uma auto identidade positiva
ConcluídoDentre os princípios basilares das Ciências Sociais e da Antropologia - dentre outros campos científicos - a noção de que há uma construção social da realidade, a qual por meio de processos de troca entre diferentes povos que atravessam a história, suas relações de poder e disputas por hegemonia que irão construir diferentes posicionalidades dos corpos, sobretudo a partir de uma compreensão interseccional dos marcadores sociais que os atravessam. Neste sentido, propomos este projeto de extensão, inspirado em uma ação homônima ao projeto aqui intitulado "Saindo do armário", realizada no campus IFRN Pau dos Ferros em 2019.
Tendo como inspiração e ponto de partida a ação supracitada, propomos que seja realizado um ensaio fotográfico com alunas e alunos, servidoras e servidores - do setor público e terceirizado - que se autodeclarem, no momento da realização do convite, como pretos, pardos e indígenas. A partir daí, após criteriosa seleção das melhores fotografias, faremos uma exposição itinerante que começará no pátio do próprio campus, sendo levada para escolas da rede pública, assim como para outros campi do IFRN.
Tal proposta visa construir um processo de letramento racial tanto por meio dos convites realizados - os quais perpassam não só a autodeclaração, mas também o processo de heteroidentificação - como também da apresentação da diversidade de corpos negros e indígenas, incentivando, assim, a quebra com uma compreensão homogênea e estereotipada da fenotipia das pessoas que compões estes grupos étnico-raciais.
Como lembra o antropólogo Kabengele Munanga (2004) há uma enorme dificuldade no Brasil para que as pessoas se identifiquem como negras, isso porque estão inseridas no contexto de uma nação construída sobre o desejo do branqueamento, que faz com que a brancura se torne um desejo a ser perseguido, sendo sinônimo de tudo que é considerado bom, bonito, sofisticado, dentre outros adjetivos possíveis, em contraste com a negritude compreendida como seu extremo oposto.
Dessa forma, este projeto visa ser um veículo para que o debate sobre a construção das identidades raciais seja estimulado, buscando assim positivar, valorizar e incentivar a autodeclaração enquanto pessoas negras e indígenas que não seja baseada apenas no estigma que funda a invenção de Brasil, assim como o próprio mundo moderno ocidental, mas que valorize os traços, a história e a ancestralidade dos povos africanos e ameríndios, rompendo assim com o que a autora e pesquisadora Chimamanda Ngozi Adichie (2009) chama do perigo da história única, isto é, o perigo da construção de narrativas hegemônicas que tendem a apresentar perspectivas estereotipadas e homogeneizadas daquele grupo social. A imposição deste olhar dominante tem efeitos também sobre a autoimagem que sujeitas e sujeitos pertencentes aos grupos racialmente minorizados, de modo que comumente geram um auto-ódio, baixa auto-estima, dentre outros efeitos que entrecruzam as existências cotidianas do membros destes grupos e as já referidas posicionalidades destes corpos e existências.
Por fim, ao propor este projeto compreendemos que, a partir de um processo baseado em uma dialogicidade construída junto a docentes de diferentes áreas, técnicos (as) e discentes comprometidas e comprometidos na construção das atividades que o preencherão, pretende-se construir não apenas uma visibilidade positivada destes corpos negros e indígenas, mas estimular o debate e o letramento racial no cotidiano institucional e da sociedade como um todo.
Projeto importado do Suap em 15/03/2026 às 04:41 (há 12 horas, 44 minutos)