Expressão artística
Quando o palco ensina: o teatro como experiência formativa no IFRN
Projetos e vivências evidenciam as artes cênicas como linguagem presente na formação acadêmica e cultural dos estudantes
Publicada por Max Praxedes em 27/03/2026 ― Atualizada em 27 de Março de 2026 às 23:16
Celebrado em 27 de março, o Dia Mundial do Teatro marca a relevância de uma linguagem artística que, ao longo da história, transforma experiências individuais em narrativas coletivas. No teatro, a palavra ganha corpo, o gesto produz sentido e o palco se torna espaço de leitura crítica da realidade. Mais do que representação, se trata de uma forma de conhecimento que articula sensibilidade, reflexão e expressão.
No Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN), essa dimensão se materializa no cotidiano dos campi, onde o teatro integra práticas pedagógicas, projetos de extensão e vivências estudantis, frequentemente vinculadas aos Núcleos de Arte, ligados à Pró-Reitoria de Extensão (Proex). Presente em diferentes contextos e formatos, a linguagem teatral amplia possibilidades de aprendizagem e fortalece a formação integral dos estudantes, ao estimular a autonomia, a criatividade e o olhar atento para as questões sociais.
Memória e formação
De acordo com a servidora Arilene Lucena, autora do livro “A forja e a pena”, que aborda a trajetória da instituição, a história do teatro no IFRN remonta às primeiras décadas do Século XX, quando a então Escola de Aprendizes Artífices de Natal já promovia atividades culturais com apresentações públicas, recitais e momentos de expressão coletiva. Mesmo sem a formalização do teatro como linguagem artística autônoma, festas escolares, solenidades e encontros estudantis apresentavam forte caráter performático, aproximando estudantes da encenação, da oralidade e da representação diante do público. A vivência artística, desde então, passa a integrar o cotidiano escolar como instrumento formativo.
O fortalecimento desse cenário ocorre com a criação do Centro Lítero-Recreativo, especialmente entre as décadas de 1940 e 1960, durante o período da Escola Industrial de Natal. O espaço reunia atividades culturais regulares, como apresentações humorísticas, leituras, declamações e momentos recreativos, favorecendo o desenvolvimento de experiências cênicas. Embora ainda não houvesse grupos teatrais formalizados, o ambiente estimulava a expressão artística, a performance e a interação com o público, configurando-se como base para a consolidação do teatro na instituição.
A estruturação do teatro como prática organizada se intensifica a partir da década de 1970, já no período da Escola Técnica Federal do Rio Grande do Norte, com a inclusão da Educação Artística no currículo e o incentivo à formação de grupos culturais. Nesse contexto, surge o Grupo de Teatro Laboratório, um dos primeiros coletivos teatrais organizados do IFRN, vinculado às atividades pedagógicas e coordenado por professores como Walfredo Brasil. A iniciativa marca a transição de manifestações espontâneas para uma prática sistematizada, articulando ensino, criação artística e participação estudantil.
Na década de 1990, o teatro amplia sua visibilidade com a criação do grupo Falas e Pantomimas, fundado pelo professor Artemilson Lima e coordenado pela professora Maria Isabel Dantas. O coletivo realizou montagens de destaque, como “Irene não sabe das coisas”, “Édipo” e “O pagador de promessas”, além de diversos esquetes. A atuação do grupo contribuiu para consolidar o teatro como linguagem artística relevante no IFRN, fortalecendo sua dimensão educativa e formativa na trajetória dos estudantes.
A relevância desse processo também é destacada pela professora Kalina Paiva, integrante da primeira formação do grupo Falas e Pantomimas, entre 1993 e 1995: “a experiência trouxe ganhos humanos, interpessoais e formativos relevantes”, afirma. Segundo ela, o reconhecimento institucional foi decisivo para a consolidação do teatro no IFRN, permitindo a continuidade do grupo ao longo das décadas. Kalina também ressalta o legado da iniciativa na formação de profissionais: “hoje temos ex-integrantes atuando como professores de artes em diferentes redes de ensino”, evidenciando o impacto do grupo para além da instituição.
O fazer teatral no IFRN
Nos diferentes campi do IFRN, o teatro assume múltiplas formas, mas mantém um ponto em comum: a capacidade de atravessar o cotidiano escolar e transformar experiências em processos de criação coletiva. A partir da escuta de professoras e professores que atuam diretamente com a linguagem, é possível observar como o fazer teatral se articula ao ensino, à extensão e à relação com a comunidade, se consolidando como prática formativa que mobiliza sensibilidade, pensamento crítico e expressão.

Em Mossoró, a professora Maria Luiza Lopes descreve uma cena marcada pela intensidade das ações e pela forte inserção cultural. À frente do Grupo Andaluz de Teatro, ela aponta a regularidade de montagens, festivais e intercâmbios com artistas locais, além da presença do teatro nas disciplinas: “o envolvimento dos estudantes é impressionante. Eles chegam com vontade de produzir, de experimentar, e encontram no teatro um espaço de expressão muito potente”. As produções frequentemente abordam temas sociais, e, para a docente, o teatro amplia horizontes formativos: “permite enxergar outras possibilidades de mundo”, detalha.

No Campus São Paulo do Potengi, a professora Monique Oliveira destaca a articulação entre ensino e extensão, com ações desenvolvidas tanto em sala de aula quanto no Núcleo de Arte. Oficinas, experimentos cênicos e montagens integram estudantes e comunidade externa em processos coletivos: “os estudantes vestem o personagem e participam de forma criativa, colaborativa e coletiva”, descreve. Ao tratar do papel formativo da linguagem, ela enfatiza: “o teatro é uma arte de resistência e de presença”, capaz de desenvolver expressão, empatia e senso crítico.
Em Pau dos Ferros, o professor Emanuel Coringa evidencia o caráter coletivo das práticas, que envolvem o grupo Arrelia de Chepa, ações no Núcleo de Arte e participações em festivais. Os processos criativos partem das inquietações dos próprios estudantes, que definem temas e constroem as encenações de forma colaborativa: “a arte potencializa vozes e transforma em ação artística aquilo que precisa ser dito”, declara. Para ele, o teatro também cumpre uma função social mais ampla: “é um processo coletivo, quase curativo, que fortalece vínculos e amplia a compreensão de mundo”.

Já em Lajes, o professor André Bezerra ressalta a integração entre atividades em sala de aula e grupos como Rio de Vento e Poetize-se, com forte adesão estudantil. As produções transitam entre temas sociais e questões subjetivas, refletindo interesses diversos: “o envolvimento é muito forte, com adesão intensa de alunos interessados na atuação e nos elementos da cena”, comenta. Ao refletir sobre a contribuição do teatro, ele sintetiza: “convoca os estudantes a pensar a realidade e criar outras possibilidades de mundo”.
Teatro e transformação
As experiências narradas por estudantes e egressos reforçam o papel do teatro como espaço de descoberta, formação e transformação dentro do IFRN, revelando trajetórias que se iniciam no ambiente escolar e, em muitos casos, extrapolam seus limites, alcançando o campo profissional e a construção de identidades pessoais e artísticas.
Leonardo Souza, estudante do Campus Parnamirim, relata que o primeiro contato com o teatro ocorreu em sala de aula, a partir da disciplina de Artes, mas rapidamente se expandiu para experiências mais complexas: “tive a oportunidade de adaptar, montar, dirigir e encenar uma peça, e logo depois fui convidado para integrar uma companhia de teatro”, conta. A partir dessa vivência, ele passou a atuar em produções maiores e a ocupar espaços que antes não imaginava. Entre os momentos marcantes, destaca a apresentação no Teatro Riachuelo: “foi uma experiência inesquecível, diante de uma plateia lotada e emocionada”. Para ele, o teatro impactou diretamente sua formação: “desenvolvi autonomia, senso crítico e segurança para me comunicar”, além de ampliar sua percepção sobre o mundo. “Hoje vejo o teatro como um meio de reflexão e transformação”, reflete.

A aluna Luíza Helena, conhecida como Lena, do Campus Ipanguaçu, descreve um início mais simples, mas igualmente significativo, marcado por encontros entre poucos estudantes interessados em criar coletivamente: “meu primeiro contato com o teatro no IFRN foi simples, pequenas reuniões com cinco estudantes no máximo, pesquisando e escrevendo apresentações para a escola. No início, foi encantador ver outras pessoas como eu se empenhando em fazer algo de que gostam”, relembra. Com o passar do tempo, a experiência vem se consolidando como um espaço de construção de vínculos e desenvolvimento pessoal: “foi através do teatro que conheci grandes amigos que vou levar por toda a vida, aprendi muito sobre trabalho em equipe, delegar funções e oratória, além de estar vivendo um importante processo de amadurecimento emocional”, relata.

Egressa do Campus Natal-Central, a artista Analice WWS — nome artístico adotado em sua atuação profissional — define o período no Instituto como um ponto de inflexão em sua vida: “o IFRN foi um divisor de águas, e o teatro foi um dos portais mais significativos”, afirma. Integrante de grupo teatral desde o início do curso, vivenciou ainda como estudante a transição para o campo profissional: “minha capacidade expressiva se amplificou, e as inteligências emocional, corporal e social que desenvolvi se tornaram pilares da minha vida”, observa. Ao rememorar essa trajetória, ela também evidencia a importância de referências formativas no percurso: “sou muito grata à professora Marinalva Moura; os valores de convivência e o senso comunitário que aprendi com ela são, até hoje, bússolas de sensibilidade”. Mesmo após percorrer outros caminhos, como a área jurídica, a formação artística permaneceu como base de sua atuação atual: “o teatro me fez muito mais do que uma profissional: ele me fez, sobretudo, humana”, conclui, evidenciando a profundidade das marcas deixadas por essa experiência.
Para Samira Delgado, professora de Artes e atual pró-reitora de Extensão, no IFRN o teatro perpassa as dimensões do ensino, da pesquisa e da extensão: "vinculados aos Núcleos de Arte dos diversos campi, temos ainda grupos teatrais como o Catarse, do Campus Santa Cruz, e grandes mostras teatrais como o Rocal Cênico, do Campus Natal-Centro Histórico, além dos grupos em atividade em praticamente todos os nossos campi. No IFRN, o teatro está sempre em cena, e eu te convido a ser parte dos nossos espetáculos: nos vendo da plateia ou, quem sabe, atuando em nossos palcos".

Ensino, arte e continuidade
No Campus Parnamirim, o teatro também se fortalece por meio da Especialização em Ensino de Teatro, voltada à formação continuada de docentes, artistas e agentes culturais, evidenciando o compromisso do IFRN com a valorização da linguagem teatral ao investir na qualificação de profissionais que atuam em diferentes contextos educacionais e culturais; nesse mesmo cenário, o projeto Museu Teatrar amplia essa atuação ao se dedicar à preservação e difusão da memória do teatro potiguar, por meio da criação de um acervo físico e virtual que reúne imagens, sons, textos e registros históricos, se consolidando como uma contribuição relevante para a cultura do estado diante da escassez de estudos sistematizados sobre o tema.
Entre salas de aula, palcos improvisados e grandes espetáculos, o teatro no IFRN se afirma como experiência que ultrapassa o tempo da formação e ecoa na vida de quem por ele passa. Em cada estudante que descobre sua voz, em cada professora e professor que transforma o ensino em criação, em cada egresso que leva adiante o que aprendeu, permanece a certeza de que a arte não se encerra na cena. Ela continua, em movimento, reinventando trajetórias, conectando histórias e apontando, sempre, para os próximos atos que ainda estão por vir.

- Palavras-chave:
- Artes cênicas Expressão artística Teatro Cultura Arte