Portal Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Estado do Rio Grande do Norte

Educação, Ciência, Cultura e Tecnologia em todo o Rio Grande do Norte

São Paulo do Potengi

No semiárido potiguar, IFRN faz da água ciência e futuro no Centro de Tecnologia de Águas

Iniciativa reúne pesquisadores e estudantes em projetos que monitoram, tratam e propõem soluções para a gestão da água na região semiárida

Publicada por Max Praxedes em 22/03/2026 Atualizada em 22 de Março de 2026 às 10:30

No calendário global, o dia 22 de março é dedicado à celebração do Dia Mundial da Água. No semiárido nordestino, no entanto, a água ultrapassa qualquer marca simbólica e se impõe como elemento estruturante da vida social, econômica e ambiental. Mais do que um recurso natural, ela se configura como condição de existência, atravessando o cotidiano de populações que historicamente aprenderam a conviver com a irregularidade das chuvas e com os limites impostos pela escassez hídrica.

É nesse cenário de tensões e adaptações que a ciência assume um papel estratégico, transformando a escassez em campo de investigação e inovação. No Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN), essa perspectiva se materializa em iniciativas que buscam não apenas compreender os desafios do semiárido, mas propor soluções concretas e socialmente aplicáveis. Entre essas iniciativas, se destaca o Centro de Tecnologia de Águas do Semiárido, sediado no Campus São Paulo do Potengi, que surge como resposta institucional a uma das questões mais urgentes da região.

Mais do que um espaço físico, o Centro representa um ponto de convergência entre conhecimento científico, demandas territoriais e compromisso social. Sua atuação evidencia que, mesmo em contextos marcados pela limitação de recursos, é possível construir caminhos sustentáveis a partir da articulação entre ensino, pesquisa e extensão, reafirmando o papel das instituições públicas na promoção do desenvolvimento regional.

Um centro que nasce da escassez

A criação do Centro de Tecnologia de Águas do Semiárido está diretamente vinculada às condições históricas e ambientais do Rio Grande do Norte, especialmente no que diz respeito às dificuldades de acesso à água em quantidade e qualidade adequadas. A proposta do Centro parte do reconhecimento de que os problemas relacionados à escassez e à contaminação dos recursos hídricos não são apenas desafios técnicos, mas questões complexas que envolvem dimensões sociais, econômicas e ambientais.

De acordo com o coordenador do Centro, professor Renato Dantas, a iniciativa nasce justamente da necessidade de enfrentar essas limitações de forma estruturada e científica: “a nossa criação foi motivada pelas restrições ao acesso à água em qualidade e quantidade suficientes para desenvolver o semiárido do Rio Grande do Norte. As questões ambientais de contaminação e escassez representam um dos principais desafios para as políticas de gestão hídrica do país”, afirma. Nesse sentido, o Centro se posiciona como um agente articulador, somando esforços a outras iniciativas voltadas à gestão hídrica no território.

(Foto: cedida)
(Foto: cedida)

A escolha do Campus São Paulo do Potengi como sede não é aleatória, mas resultado de uma trajetória institucional já consolidada na área ambiental. Ao longo de mais de uma década, o campus vem desenvolvendo pesquisas e ações diretamente relacionadas aos problemas hídricos da região, fortalecendo uma identidade acadêmica alinhada às demandas do semiárido. Soma-se a isso a memória histórica do território, marcada pela atuação de figuras como Monsenhor Expedito, cuja trajetória está associada à luta pelo acesso à água no interior do estado, conferindo ao Centro uma dimensão simbólica que ultrapassa o campo científico.

Tecnologia que transforma territórios

A atuação do Centro de Tecnologia de Águas do Semiárido se concretiza por meio de uma combinação entre pesquisa aplicada, desenvolvimento tecnológico e prestação de serviços à sociedade. Nos laboratórios do IFRN, amostras de água provenientes de poços, açudes e barreiros são analisadas com rigor técnico, gerando diagnósticos que contribuem para a tomada de decisões por parte de gestores públicos, organizações e comunidades locais. O trabalho cotidiano evidencia a importância da ciência como instrumento de intervenção direta na realidade.

Atualmente, o Centro desenvolve múltiplas linhas de pesquisa que dialogam com os principais desafios hídricos do semiárido, incluindo o monitoramento da qualidade ambiental, o tratamento de efluentes e o uso de tecnologias adaptadas às condições locais. Entre os projetos em destaque, estão estudos sobre remoção de microplásticos, reaproveitamento de águas residuais na agricultura e o uso de insumos naturais da Caatinga no tratamento de águas. Essas iniciativas demonstram que a inovação, quando orientada pelo contexto territorial, pode gerar soluções eficientes e acessíveis.

Nesse sentido, o professor Renato Dantas ressalta a importância de pensar tecnologias que dialoguem com a realidade do semiárido: “o reuso de águas, o aproveitamento de águas salobras e o desenvolvimento de soluções adaptadas ao território são estratégias essenciais para garantir o desenvolvimento da região”, explica. Resultados já obtidos em laboratório, como a remoção de mais de 95% de sólidos em águas tratadas com coagulantes naturais, apontam para o potencial de aplicação dessas tecnologias em escala ampliada, ampliando o alcance social das pesquisas desenvolvidas.

(Foto: cedida)
(Foto: cedida)

A presença do Centro no território também é percebida por quem vive diretamente da relação com a água. Para o pescador Moacyr Tobias, morador de São Paulo do Potengi, o acompanhamento realizado pelos pesquisadores tem impacto direto no cotidiano da população: “eles estão sempre tirando o estudo da água, para ver como estão as análises. O IFRN é um ponto fundamental mesmo, ele chega no interesse de dizer como está o estado da água, se ela está poluída, ou se o índice de coliformes fecais está alto, se está baixo”, relata.

Já o guia de turismo Jean Dantas destaca a relevância do trabalho para a economia local: “esse trabalho é de suma importância, porque nós recebemos aqui vários turistas, pessoas de todo o estado, até de fora do estado, e quando eles vêm querem saber como está a água, para quem vem tomar banho, ou fazer uso da água. Então esse trabalho é muito importante para nós aqui da comunidade, para o turismo em geral, para o comércio. A água é um bem fundamental, a água é vida, então se nós cuidarmos da água, nós estamos cuidando da vida”.

(Foto: cedida)
(Foto: cedida)

Formação que transforma trajetórias

Outro eixo fundamental da atuação do Centro está na formação de estudantes, que participam diretamente dos projetos de pesquisa e inovação, integrando uma equipe multidisciplinar composta por docentes, pesquisadores e discentes envolvidos nas diferentes frentes de atuação. Ao vivenciarem a rotina dos laboratórios e o contato com problemas reais, esses jovens ampliam sua compreensão sobre o papel da ciência na sociedade. Para muitos, a experiência representa não apenas um diferencial acadêmico, mas um processo de transformação pessoal, ao aproximá-los das realidades e desafios enfrentados pelas comunidades do semiárido.

Estudante do curso técnico integrado em Meio Ambiente do IFRN, Luiz Henrique destaca que o impacto das pesquisas desenvolvidas no Centro ultrapassa os limites do ambiente acadêmico e alcança diretamente as comunidades da região: “elas ajudam muito essas comunidades. As análises feitas nos laboratórios são fundamentais para sabermos os níveis de qualidade da água. Além de nos informar sobre o que podemos ou não consumir, essas pesquisas também nos ajudam a encontrar uma forma de resolver o problema”. Ele também ressalta a mudança em sua percepção sobre os desafios hídricos: “antes, eu não tinha noção do impacto que a poluição hídrica poderia causar não só na água, mas também nas cidades e nas pessoas. Depois de participar do Centro e entender melhor as consequências, percebi o quanto isso é importante”.

A estudante Maria Clara, também do curso técnico em Meio Ambiente, enfatiza o quanto a participação nos projetos contribui para sua formação acadêmica e preparação para o futuro profissional: “minha participação nos projetos do CT tem sido muito importante pra minha formação, tanto acadêmica quanto profissional. Participando das atividades, consigo entender melhor os conteúdos na prática, o que facilita bastante meu aprendizado. Além disso, desenvolvo habilidades importantes, como trabalho em equipe, responsabilidade, organização e comunicação”. Sobre a experiência mais marcante, ela destaca o contato direto com desafios reais: “o que mais me marca no CT é participar de projetos em que tenho mais responsabilidade e preciso lidar com desafios na prática. Isso vem me tirando da zona de conforto e me ajudando a aprender mais sobre organização, trabalho em equipe e tomada de decisões”.

(Foto: cedida)
(Foto: cedida)

O futuro corre onde a água chega

Embora ainda esteja em processo de consolidação estrutural, com previsão de conclusão de seu prédio próprio em 2026, o Centro já demonstra relevância científica e impacto social significativos. A perspectiva para os próximos anos envolve a ampliação de parcerias institucionais, o fortalecimento da infraestrutura laboratorial e a busca por certificações que garantam ainda mais rigor e reconhecimento às análises realizadas. Esses avanços são fundamentais para consolidar o Centro como referência na área de recursos hídricos no semiárido.

Para além dos resultados técnicos, o Centro também cumpre um papel essencial na formação de estudantes, integrando teoria e prática em experiências que aproximam o conhecimento acadêmico das demandas reais da sociedade. Ao participar de projetos de pesquisa e inovação, os estudantes desenvolvem não apenas competências técnicas, mas também uma compreensão ampliada de seu papel social, especialmente em contextos marcados por desigualdades e desafios ambientais.

(Foto: cedida)
(Foto: cedida)

Ao olhar para o futuro, o Centro reforça seu compromisso com a produção de conhecimento voltado à transformação social: “nossa missão é desenvolver pesquisas de excelência e impactar socialmente a região por meio da formação de recursos humanos qualificados e da transferência de tecnologias”, destaca o coordenador.

No semiárido, onde o silêncio da terra muitas vezes anuncia a ausência da chuva, cada avanço científico carrega o peso de muitas histórias e a promessa de novos começos. É nesse encontro entre escassez e conhecimento que o IFRN reafirma seu compromisso com a vida, fazendo da água não apenas objeto de estudo, mas horizonte de transformação. Porque ali, onde por tanto tempo se aprendeu a resistir, a ciência agora ensina também a florescer, e cada solução construída, cada gota analisada, cada estudante formado é, no fundo, uma forma de dizer que o futuro pode, sim, correr na direção de quem nunca deixou de acreditar nele.

Palavras-chave:
Campus São Paulo do Potengi Semiárido Inovação Centro de Tecnologia de Águas do Semiárido Água

Notícias relacionadas