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Dia Internacional da Mulher

Luzia Vieira de França: a mulher que abriu caminho na história do IFRN

Primeira diretora eleita por voto direto na então ETFRN, professora marcou a história da instituição em um período de redemocratização do país

Publicada por Jose Nascimento em 06/03/2026 Atualizada em 6 de Março de 2026 às 17:20

No mês em que o Dia Internacional da Mulher convida à memória, ao reconhecimento e à reflexão, revisitar a trajetória de Luzia Vieira de França é também revisitar um capítulo decisivo da história do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN). Primeira – e até hoje única – mulher a ocupar o cargo máximo da instituição, Luzia deixou sua marca em um período de transformações políticas, disputas democráticas e reorganização institucional.

A Diretoria de Comunicação Sistêmica, com base em registros históricos e estudos das servidoras Arilene Lucena e Daniella Lago sobre a memória da instituição, traz ao público do Portal IFRN um breve histórico da trajetória dessa gestora, reunindo informações presentes em pesquisas acadêmicas e em documentos dedicados à história da Escola Técnica Federal do Rio Grande do Norte (ETFRN).

Início da carreira

Natural de Pau dos Ferros (RN), onde nasceu em 13 de dezembro de 1934, Luzia construiu uma trajetória profissional marcada pela dedicação à educação. Dentista de formação, iniciou cedo sua atuação como professora. Antes de chegar à ETFRN, em 1970, já havia lecionado em escolas de sua cidade natal e também em instituições da capital potiguar, como os colégios Marista, Atheneu e Salesiano.

Na então Escola Técnica Federal do Rio Grande do Norte, ingressou como professora de Ciências Biológicas. Com o passar dos anos, passou a assumir responsabilidades ligadas à organização pedagógica da instituição, exercendo funções como coordenadora de Supervisão Pedagógica e Apoio Didático e chefe do Departamento de Ensino.

Infográfico reproduzido a partir da tese da servidora Danielle Lago
Infográfico reproduzido a partir da tese da servidora Danielle Lago

Pedagogia

Uma das contribuições mais significativas da professora Luzia para a ETFRN ocorreu na década de 1970, quando participou da implantação do Serviço de Supervisão Pedagógica da Escola. A iniciativa fazia parte de uma política do Ministério da Educação voltada à qualificação dos processos de ensino nas escolas técnicas federais.

O trabalho não começou sem resistências. Muitos docentes interpretaram a supervisão pedagógica como um mecanismo de fiscalização sobre suas atividades em sala de aula. O desafio exigiu capacidade de diálogo e mediação entre diferentes áreas do conhecimento.

A própria Luzia lembraria, anos depois, das dificuldades daquele momento: “Precisava ter muito tato, porque você questionava não o conteúdo, mas a forma como o conteúdo estava sendo cobrado do aluno.”

Com o tempo, o trabalho desenvolvido pela supervisão ajudou a consolidar práticas institucionais que se tornariam permanentes, como as reuniões pedagógicas – espaços coletivos de reflexão sobre ensino, avaliação e acompanhamento dos estudantes.

Eleição

A trajetória de Luzia na gestão institucional ganhou novo significado em meados da década de 1980. O Brasil vivia o processo de redemocratização após mais de duas décadas de regime militar. Esse ambiente político repercutia também nas instituições públicas de ensino.

Quando o então diretor da ETFRN, Marcondes Mundim Guimarães, deixou o cargo para assumir função em Brasília, Luzia assumiu interinamente a direção da Escola. Pouco tempo depois, a comunidade da escola iniciou um movimento para realizar a primeira eleição direta para a direção da instituição.

O processo mobilizou professores, estudantes e servidores técnico-administrativos. Em 1986, sete candidaturas foram registradas. Entre elas, apenas uma era de uma mulher: a professora Luzia Vieira de França.

Imagem reproduzida a partir da tese da servidora Danielle Lago
Imagem reproduzida a partir da tese da servidora Danielle Lago

Sobre sua decisão de disputar a eleição, Luzia recordaria: “Eu estava há dois anos no cargo, completando o mandato anterior. Então pensei: por que não completar um trabalho que comecei? Era um desafio — e eu gosto muito das coisas desafiadoras.”

No dia 30 de outubro daquele ano, com 33,16% da preferência da comunidade escolar, ela foi eleita diretora da ETFRN, tornando-se a primeira mulher a assumir o cargo máximo da instituição por voto direto.

Gestão

O mandato de Luzia Vieira de França ocorreu entre 1987 e 1991, período marcado por transformações estruturais e pela expansão das atividades da Escola Técnica Federal do Rio Grande do Norte.

Imagem reproduzida a partir da tese da servidora Danielle Lago
Imagem reproduzida a partir da tese da servidora Danielle Lago

Durante sua gestão, a instituição avançou em diferentes frentes. Houve expansão das Unidades de Ensino Descentralizadas no interior do estado, investimentos em infraestrutura acadêmica e administrativa e ampliação de laboratórios e espaços de formação.

A gestão também buscou fortalecer a integração entre a Escola, o setor produtivo e a sociedade, ampliando ações de estágio e cooperação com empresas. Paralelamente, houve incentivo à qualificação de docentes e servidores, com iniciativas voltadas à formação e ao aperfeiçoamento profissional.

Imagem reproduzida a partir da tese da servidora Danielle Lago
Imagem reproduzida a partir da tese da servidora Danielle Lago

Ao recordar aquele momento, Luzia destacava o significado da vitória e do início de sua administração: “Tive uma grande maioria de votos entre os professores. [...] E aí eu comecei uma gestão que era realmente minha.”

Legado

Décadas depois, o nome de Luzia Vieira de França permanece como referência na memória institucional do IFRN. O Centro de Tecnologia e Cultura do IFRN, que está sendo implantado no prédio histórico da Rio Brando, recebe o nome da professora.

Reprodução da foto de Luzia, na galeria de dirigentes da instituição
Reprodução da foto de Luzia, na galeria de dirigentes da instituição

Em uma trajetória institucional historicamente marcada pela presença masculina nos cargos de direção, sua eleição representou um marco simbólico importante para a instituição. Sua atuação ajudou a consolidar práticas pedagógicas, fortalecer a gestão educacional e ampliar o diálogo entre diferentes segmentos da comunidade acadêmica.

No mês em que se celebra o Dia Internacional da Mulher, lembrar sua trajetória é também reconhecer o papel das mulheres na construção da educação pública e na história do IFRN.

Fontes e referências

Portal do Centenário do IFRN;

A forja e a pena: técnica e humanismo na trajetória da Escola de Aprendizes Artífices de Natal à Escola Técnica Federal do Rio Grande do Norte”, livro da servidora Arilene Lucena de Medeiros; e

História e memória da ETFRN (1968–1998) e a gestão da professora Luzia Vieira de França”, tese de doutoradoda servidora Daniella Lago Alves Batista de Oliveira Eustáquio.

Palavras-chave:
Dia Internacional da Mulher ETFRN Luzia Vieira de França

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