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DIA DO ESTUDANTE

Apesar das linhas tortas, escrevendo um futuro mais certo

20/08/2021 - Charles decidiu estudar para ser professor após sofrer um acidente em seu antigo emprego

Apesar das linhas tortas, escrevendo um futuro mais certo

Charles participando do VI Congresso Nacional de Educação

Por Maria Clara Pimentel

No município de Touros, a 91km da capital potiguar, existe um bairro chamado Santa Luzia. No pequeno povoado, as perspectivas de trabalho para a maioria da população se resumem a lidar com carregamento de coco descascado, plantio de banana, limpeza de terreno ou arranjar emprego em um supermercado ou em uma “lojinha, se você for mais desenrolado”. É assim que descreve José Charles, nascido e criado no local. Hoje estudante da Especialização em Ensino de Ciências para Educação Básica, no Campus João Câmara do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN) e já formado em Licenciatura em Física pelo mesmo Campus, Charles não viu outra opção que não estudar para ser professor e ter melhores condições de vida após sofrer um acidente em 2015.

“A gente tinha carregado um caminhão de coco descascado e estávamos saindo de Punaú para Santa Luzia. Acabou acontecendo que o motorista perdeu o controle do caminhão e ele capotou com a gente”, assim explica o infortúnio que mudou sua forma de enxergar o mundo. Depois do episódio, o trauma de andar em carros de grande porte se tornou uma parte da vida de Charles: “Passei um tempo indo de ônibus para a escola; eu pegava e ficava segurando as gradezinhas que têm umas telazinhas, eu ficava lá abaixado; passei um bom tempo fazendo isso e, até hoje, fico um pouco receoso.” Felizmente, ninguém se machucou além de alguns arranhões, mas a ideia de futuro do jovem estaria para sempre transfigurada: “Após esse acidente, eu disse ‘não, eu quero melhorar, eu quero outra coisa para mim, algo que dê uma certa segurança ao trabalhar’, por isso que eu escolhi a carreira da docência”.

Entrou na Licenciatura em Física no ano seguinte, mas quem disse que, de uma hora para outra, o caminho seria fácil? Além das greves no Instituto Federal, 2016 também contou com problemas de orçamento na Prefeitura de Touros, segundo Charles. “Não estavam pagando funcionários, então os ônibus estavam todos parados. Passou-se muitos meses sem ter ônibus para levar os alunos; às vezes acontecia de um ônibus quebrar e passar quinze, trinta dias realmente parado, então eu passei quase um ano nessa peleja”, contou. E mesmo com os ônibus funcionando, os 60km de viagem diária não eram cobertos pelo auxílio-transporte, o que fazia o estudante perder, frequentemente, dias de aula. Ficou inviável continuar em Touros, e trancar o curso não era uma opção, pelo medo de voltar a trabalhar com carregamento de coco, então, assim que Charles conseguiu uma bolsa de apoio estudantil, decidiu ir morar em João Câmara.

Ajuda dos auxílios-estudantis

O tourense considera as condições de acesso e as oportunidades de permanência, que teve no IFRN durante a sua graduação, como muito importantes: “A bolsa foi um dos fatores que me ajudou a pagar o aluguel da casa e tudo mais; eu também tinha auxílio-alimentação no IF, então ajudava muito; eu avalio [essas ações] como de extrema importância, porque nem todo mundo tem as mesmas condições de ter as mesmas formas de acesso.” Não só de acesso nem só de permanência, tais auxílios ajudaram a fazer Charles projetar a continuação no desenvolvimento de seu conhecimento e na constante Especialização.

Encontros gerados pelo IFRN

Ao entrar em Física, seu foco era terminar o curso e ser professor de alguma escola municipal, mas encontrou nos próprios professores uma fonte de companheirismo e inspiração que o levaram a pensar maior: “Foi um processo de amadurecimento, você entra na graduação e vai construindo, vai traçando o que você quer; na pós-graduação, não é só você se formar para ir para o mercado, é você se formar e pensar sempre em ir um pouco mais adiante”, explica. Durante os cinco anos da Licenciatura, Charles teve a oportunidade de participar de vários projetos de Extensão e de Pesquisa, aprendeu a escrever artigos, a pesquisar, a formatar, a ter boas relações com as pessoas envolvidas, se inseriu no mercado de trabalho e, em tudo a que se propôs, encontrou um significado. “A cada evento que a gente ia, a cada participação que a gente fazia, a cada escola com uma perspectiva de educação que a gente não conhecia, a gente acabava amadurecendo nesse sentido, com essas experiências”, declarou.

Foi na graduação que Charles se deparou com uma paixão e uma aptidão pela área da Física que ele não sabia que tinha, mas suas descobertas não ficaram apenas no âmbito profissional: “Eu venho de uma família bem tradicional, bem religiosa, então quando entrei no IF foi um mundo diferente para mim; acabou que eu fui me encontrando, então eu tive muitas conversas com a psicóloga do Campus, fui me descobrindo como a pessoa que eu sou hoje e também encontrei o amor da minha vida no IFRN, ele fazia essa mesma Especialização que eu faço hoje.”

Charles e Paulo Sérgio se conheceram em 2018, na metade da graduação do tourense. Charles havia saído de um relacionamento há um tempo e estava voltando a conhecer outras pessoas. Conhecia Paulo de vista mas só começaram a conversar quando deram match em um aplicativo de relacionamentos. “A gente foi conversando, se conhecendo, começamos a sair para ter encontros; fui vivendo, aí com o passar do tempo começamos a namorar. Depois, a gente casou e estamos juntos até hoje”, fala perceptivelmente com um sorriso no rosto. Paulo também fez graduação no IFRN, depois a mesma Especialização que Charles faz atualmente e, hoje, já está em outra pós-graduação.

Planos futuros

Com a colação de grau da Licenciatura marcada para o dia 24 de agosto, Charles começou a cursar neste ano a Especialização em Ensino de Ciências para Educação Básica e sonha com um futuro ainda mais brilhante: “Nos próximos cinco anos, eu quero estar com meu Mestrado feito, estar na metade do meu Doutorado, ter passado em algum concurso e estar fazendo trabalhos que possam contribuir para a melhoria da educação na região do Mato Grande, que eu acho que carece, que precisa de incentivos, de políticas públicas e de mais oportunidades de capacitação para os profissionais da região”. Charles usa das tortuosas curvas que enfrentou para chegar até aqui como combustível para pavimentar um caminho mais reto aos que virão depois.

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